A construção de uma formação em economia popular e solidária começa antes da sala de aula. É preciso chegar aos territórios, conversar com as organizações, conhecer suas rotinas e compreender quais conhecimentos podem contribuir efetivamente para o fortalecimento dos grupos. Foi com esse propósito que a UNISOL Brasil realizou, durante o mês de julho, uma série de ações de mobilização na Região Metropolitana de São Paulo.
As atividades aconteceram principalmente em Itapevi e Francisco Morato e envolveram cooperativas de catadores de materiais recicláveis e uma instituição social. Ao todo, foram realizadas cinco ações, entre contatos iniciais e encontros coletivos.
O trabalho integra a etapa de mobilização das pessoas que participarão das capacitações gratuitas promovidas pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo. As formações têm como objetivo disseminar os conceitos da economia popular e solidária e oferecer conhecimentos relacionados à gestão, à comercialização, à organização administrativa, à contabilidade e à conformidade legal dos empreendimentos.
Para Jorge, da equipe de Projetos da UNISOL Brasil, a mobilização é uma etapa essencial para que as formações estejam conectadas às necessidades reais de cada organização.
“Não se trata apenas de divulgar um curso ou preencher uma lista de participantes. A mobilização é um momento de escuta e de aproximação. É quando conhecemos a realidade dos empreendimentos, entendemos suas dificuldades e apresentamos uma proposta de formação capaz de contribuir com o trabalho que já vem sendo desenvolvido nos territórios”, destaca.
Encontro reúne cooperados da Ganhando Vidas
Em Itapevi, o primeiro diálogo foi estabelecido com Regina Silva dos Santos, representante da Cooperativa de Catadores Ganhando Vidas. Durante o contato inicial, a equipe apresentou os objetivos do projeto, explicou que as capacitações serão oferecidas gratuitamente e conversou sobre a disponibilidade das trabalhadoras e dos trabalhadores para participar das atividades.
A aproximação resultou em um encontro com 16 integrantes da cooperativa. Na reunião, foram apresentados os temas previstos para as formações, a carga horária e os critérios para a certificação.
Segundo a mobilizadora Rosa Santos, a proximidade construída anteriormente com os integrantes da cooperativa contribuiu para que o grupo se sentisse à vontade para participar da conversa, apresentar dúvidas e compreender a importância das formações.
“O grupo foi muito receptivo, participativo e organizado. Os cooperados fizeram várias perguntas sobre o funcionamento do projeto, como seriam as formações e de que maneira os conteúdos poderiam ajudá-los no dia a dia. Essa abertura permitiu uma conversa muito importante sobre o conhecimento como instrumento para fortalecer o trabalho que eles já realizam”, relata Rosa.
O grupo demonstrou interesse especialmente pelos conteúdos relacionados à gestão e à comercialização. São áreas consideradas estratégicas para melhorar a organização interna, ampliar as oportunidades de geração de renda e fortalecer a presença da cooperativa nos diferentes espaços de comercialização.

Gestão do empreendimento e continuidade
Durante a mobilização, os cooperados também destacaram que as formações não devem representar uma ação isolada. Uma das principais demandas apresentadas foi a necessidade de continuidade no acesso às informações e de apoio para enfrentar as dificuldades relacionadas à gestão do empreendimento.
“Eles deixaram claro que não querem apenas participar de uma formação pontual e, depois, ficar sem acompanhamento. O grupo solicitou apoio e informações continuadas, especialmente na área da gestão, que ainda representa uma dificuldade muito grande para a cooperativa. Ter esse suporte mais próximo pode ajudar a colocar a gestão em prática dentro do trabalho que eles desenvolvem todos os dias”, explica a mobilizadora.
Rosa observa que essa necessidade não está presente apenas na Ganhando Vidas, mas também em outras cooperativas e grupos em processo de formação. Para ela, futuros projetos que possibilitem um acompanhamento mais próximo da organização interna dos empreendimentos poderão ampliar os resultados das capacitações.
“Além das formações, a presença de uma pessoa que possa orientar e acompanhar mais de perto a gestão faria muita diferença. Esse tipo de apoio pode fortalecer tanto a Ganhando Vidas quanto outras cooperativas que enfrentam dificuldades semelhantes e também os grupos que estão começando”, avalia.
A participação também revelou o interesse de outros cooperados que não conseguiram comparecer ao primeiro encontro. Como encaminhamento, será realizada uma nova rodada de mobilização, além do envio do formulário de cadastro em formato digital para facilitar as adesões.

Mobilização apresenta trajetória da UNISOL Brasil
O encontro com a Cooperativa Ganhando Vidas também possibilitou apresentar aos participantes a trajetória da UNISOL Brasil e o trabalho desenvolvido, ao longo dos anos, no apoio a cooperativas, associações e empreendimentos da economia popular e solidária.
De acordo com Rosa Santos, muitos dos jovens presentes ainda não conheciam a dimensão dessa atuação. Entre os participantes mais antigos, alguns já tinham ouvido falar da entidade, mas também desconheciam o alcance de suas ações e projetos.
“Foi um momento importante para contar um pouco da história da UNISOL Brasil e mostrar o trabalho realizado junto aos empreendimentos. Falamos sobre projetos que contribuíram para o crescimento das cooperativas, com acesso a caminhões, equipamentos, infraestrutura e formações nas áreas da economia solidária e do cooperativismo”, afirma.
Para a mobilizadora, apresentar essa trajetória também ajuda os trabalhadores e as trabalhadoras a compreenderem que fazem parte de um movimento mais amplo de organização coletiva, geração de renda e transformação dos territórios.
“Foi muito gratificante perceber o interesse do grupo. Eles fizeram muitas perguntas e começaram a compreender melhor o papel da UNISOL Brasil no apoio e no fortalecimento das cooperativas. Essa troca também reforçou a importância de garantir que as informações e as formações tenham continuidade”, acrescenta Rosa.
Troca de experiências fortalece o debate em Itapevi
A mobilização também chegou à Instituição Educacional e Social de Itapevi. Após um contato inicial com a representante Grace Aparecida, foi organizado um encontro que reuniu dez participantes.
Durante a atividade, o grupo conheceu os objetivos do projeto, os conteúdos das capacitações e os critérios de participação. O encontro foi marcado pela troca de experiências, com relatos sobre processos de mobilização social dos quais os participantes já haviam feito parte.
As experiências compartilhadas ajudaram a ampliar a conversa sobre a economia popular e solidária e suas relações com o trabalho comunitário desenvolvido pela instituição. Para os participantes, a proposta formativa pode colaborar diretamente com as ações sociais já realizadas no município.
Ao final, a relação de interessados foi encaminhada para o cadastro prévio. Um novo contato será feito para confirmar as inscrições e organizar a participação do grupo nas próximas etapas.

Diálogo iniciado com cooperativa de Francisco Morato
Em Francisco Morato, a equipe iniciou a articulação com a Cooperunidos, Cooperativa de Trabalho dos Catadores de Materiais Recicláveis. O primeiro contato foi realizado com as representantes Rosana e Joelma.
Na conversa, foram apresentados os conteúdos programáticos das formações e discutida a possibilidade de realização de um encontro com o conjunto dos cooperados. A data ainda será confirmada, considerando a necessidade de conciliar a atividade com a rotina de trabalho do empreendimento.
A experiência das primeiras mobilizações mostrou que a organização dos encontros precisa respeitar o cotidiano produtivo dos grupos, especialmente das cooperativas de catadores, onde a jornada de triagem de materiais recicláveis costuma ocupar grande parte do dia.
Além da compatibilização das agendas, a distância entre os municípios e a necessidade de refazer alguns contatos aparecem entre os desafios dessa etapa. Para superar essas dificuldades, a mobilização combina visitas, reuniões presenciais, contatos telefônicos, mensagens e divulgação nos canais digitais das próprias organizações.
“Cada empreendimento tem seu tempo, sua dinâmica de trabalho e sua forma de organização. Por isso, precisamos construir esse processo com diálogo e flexibilidade. A boa receptividade que encontramos demonstra que existe uma demanda concreta por formação e uma disposição muito grande dos grupos para fortalecer seus conhecimentos e sua capacidade de organização”, afirma Jorge.
Próximas etapas
Os resultados de julho são considerados positivos para o início da mobilização. Três organizações foram alcançadas: duas em Itapevi e uma em Francisco Morato. Duas delas já participaram de encontros coletivos, enquanto a Cooperunidos permanece na fase de definição da agenda.
Nos próximos meses, a UNISOL Brasil pretende realizar o encontro com os integrantes da Cooperunidos, promover uma nova atividade com a Cooperativa Ganhando Vidas e consolidar as fichas de cadastro das pessoas interessadas em uma base única de inscrições.
A mobilização também será ampliada para outros territórios e organizações parceiras, buscando alcançar o número necessário de participantes para a composição das turmas. O processo continuará atento às demandas apresentadas pelos próprios empreendimentos, entre elas a necessidade de conhecimentos que possam ser aplicados na rotina e de ações capazes de contribuir, de maneira continuada, para a gestão e a organização coletiva.
“Ao aproximar formação, trabalho e realidade territorial, a iniciativa reafirma um dos princípios fundamentais da economia popular e solidária: o conhecimento também é construído coletivamente. Mais do que preparar participantes para as capacitações, o processo fortalece vínculos, reconhece os saberes presentes nos empreendimentos e abre novas possibilidades para que cooperativas e organizações sociais avancem em sua autonomia, sustentabilidade e capacidade de transformação”, finaliza Jorge.

