NotíciasUNISOL Brasil fortalece o debate sobre autonomia econômica e direitos das mulheres

UNISOL Brasil fortalece o debate sobre autonomia econômica e direitos das mulheres

A autonomia econômica como caminho para romper ciclos de violência, ampliar a liberdade de escolha e fortalecer a participação das mulheres na sociedade foi o tema do décimo segundo encontro do Curso de Educadoras Populares no Enfrentamento à Violência contra a Mulher. Realizada de forma on-line no dia 27 de agosto, a atividade reuniu mulheres de diferentes estados brasileiros e contou também com a participação de uma representante da Guiné-Bissau.

Promovido pela UNISOL Brasil, o curso tem como objetivo preparar educadoras populares para multiplicarem conhecimentos em seus territórios, comunidades e organizações. Mais do que transmitir conteúdos, a formação oferece um espaço permanente de acolhimento, troca de experiências e fortalecimento das mulheres que atuam na economia popular e solidária e em diferentes movimentos sociais.

A abertura do encontro destacou os avanços conquistados com a Lei Maria da Penha e a necessidade de fortalecer políticas públicas capazes de prevenir a violência, proteger as mulheres e assegurar condições para que elas reconstruam suas vidas. Nesse processo, a independência financeira ocupa um lugar fundamental, mas precisa estar acompanhada de proteção social, autoestima, formação e organização coletiva.

“Este é um espaço de troca de experiências, acolhida e socialização de informações, mas, mais do que isso, é um espaço de fortalecimento de nós, mulheres militantes. Os temas discutidos oferecem subsídios para o trabalho que já realizamos em nossas bases, territórios e comunidades”, afirmou Magda Almeida, secretária-geral da UNISOL Brasil.

Economia solidária para transformar vidas

O encontro foi conduzido pela educadora popular Eliane de Moura Martins, doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e graduada em História pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Militante do Movimento Brasil Popular e dirigente da Escola Nacional Paulo Freire, Eliane também integra a equipe de Formação da Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego (SENAES/MTE) e a equipe pedagógica do Projeto Educar e Cooperar.

A partir da pergunta “O que muda na vida de uma mulher quando ela passa a ter sua própria renda?”, Eliane provocou as participantes a refletirem sobre os significados da autonomia econômica. Segundo a educadora, possuir renda própria é importante, mas o conceito envolve dimensões mais amplas da vida.

“A autonomia econômica é parte de uma estratégia de prevenção e enfrentamento à violência de gênero, mas é mais do que isso. É também um estímulo para que as mulheres se organizem coletivamente, tenham acesso a direitos, a políticas públicas e ao trabalho associado”, explicou.

Eliane ressaltou que a economia solidária apresenta uma alternativa à lógica segundo a qual a única possibilidade de independência seria conseguir um emprego formal e pagar individualmente as próprias contas. A proposta do movimento é construir autonomia por meio da cooperação, da autogestão e da organização comunitária.

“Autonomia econômica é mais do que acesso à renda ou a um salário. É uma dimensão da cidadania e da dignidade humana. Envolve poder de decisão sobre os recursos e sobre a própria vida, além de autoestima e condições de participação social”, destacou.

Renda, autoestima e liberdade

As experiências compartilhadas pelas participantes mostraram que a violência contra as mulheres atravessa diferentes classes sociais e não pode ser explicada apenas pela dependência financeira. Para Cláudia Silva, de Sergipe, a renda própria oferece segurança e possibilidade de escolha, mas deve caminhar ao lado do fortalecimento emocional.

“O dinheiro ajuda bastante, porque a mulher passa a gerir sua própria vida e consegue garantir necessidades básicas, como um teto, alimento para os filhos, roupas e outras despesas. Mas é essencial combinar essa renda com autoestima e com a liberdade de acreditar que ela pode seguir outro caminho”, afirmou.

Cláudia também compartilhou experiências de trabalho com mulheres em situação de privação de liberdade e destacou como a economia solidária pode contribuir para a reconstrução de trajetórias. Segundo ela, a organização em grupos oferece apoio, recupera vínculos e permite que as mulheres voltem a reconhecer suas próprias capacidades.

“A economia solidária ajuda a mulher a conhecer a sua força e a sua potencialidade. Muitas vezes, nós enxergamos naquela companheira uma liderança que ela própria ainda não consegue perceber”, relatou.

Diretamente da Guiné-Bissau, Adama Arora Baldé relacionou a autonomia financeira ao poder, à dignidade e aos direitos humanos. Gestora de projetos e coordenadora de uma iniciativa voltada ao empoderamento das mulheres, ela explicou que, em comunidades marcadas pela vulnerabilidade, o acesso aos próprios recursos produz mudanças que vão muito além da renda.

“Para muitas mulheres, ter acesso aos próprios recursos significa, pela primeira vez, ter margem para decidir a própria vida. Muda a relação com a necessidade, com a família, com a capacidade de negociar e com a percepção do próprio valor. Ter o próprio dinheiro também é um ato político, social e cultural”, afirmou Adama.

O fortalecimento que nasce do coletivo

A dimensão coletiva da economia solidária esteve presente em diferentes momentos do encontro. Celecina Rodrigues, de Niterói, destacou que participar de uma feira, de uma cooperativa ou de um grupo produtivo não significa apenas comercializar produtos. Esses espaços também constroem pertencimento, formação política e redes de apoio.

“A economia solidária nos traz o esperançar. Não é apenas ter dinheiro ou sair da vulnerabilidade financeira. É fortalecimento de vínculos, emancipação e a possibilidade de produzir de forma coletiva e associada. A mulher não vai à feira somente para vender; ela vai também para estar, conviver e se fortalecer”, declarou Celecina.

Para ela, a economia solidária acolhe conhecimentos e práticas que frequentemente são desvalorizados pelo mercado tradicional, especialmente os saberes das mulheres negras, periféricas e das comunidades tradicionais.

“A economia solidária agrega aquilo que o mercado de trabalho exclui e recupera os nossos saberes ancestrais. É emancipação, autonomia e empoderamento. Precisamos fazer esse conhecimento reverberar e chegar a outras mulheres”, acrescentou.

Magda Almeida observou que a economia solidária desafia as mulheres a reverem conceitos, reconhecerem suas capacidades e ocuparem espaços que historicamente lhes foram negados, como universidades, audiências públicas, conselhos e instâncias de decisão.

“A economia solidária nos acolhe a partir de quem somos e da trajetória que carregamos. Dentro de um grupo, uma mulher pode descobrir que é capaz de cuidar das finanças, da comunicação ou da gestão. Muitas começam a se perceber de outra forma e passam a dizer: ‘Eu posso ir mais além’”, ressaltou Magda.

Segundo a secretária-geral, essa transformação alcança não somente cada participante, mas também suas famílias e comunidades. “O que estamos fazendo é uma revolução das mentes e dos corações. Quando uma mulher conquista autonomia econômica, ela pode salvar a própria vida, proteger os filhos, apoiar sua família e romper a repetição dos ciclos de violência”, completou.

Reconhecer as potencialidades dos territórios

Ao final da formação, Eliane propôs que as educadoras populares realizem, junto às mulheres de suas comunidades, um mapeamento dos conhecimentos, talentos e atividades econômicas existentes nos territórios. Costura, culinária, reciclagem, agricultura urbana, cuidado de crianças, tecnologias e prestação de serviços são exemplos de práticas que já movimentam a economia popular, mesmo quando ainda não são reconhecidas dessa maneira.

“Todas as mulheres sabem fazer alguma coisa e carregam algum potencial. O desafio é parar, olhar para o território e perguntar: o que já sabemos fazer? O que já existe aqui? A economia popular já acontece nas casas e nos bairros. Precisamos aproximá-la dos princípios e valores da economia solidária e conectá-la às políticas públicas”, orientou Eliane.

O encontro reafirmou que promover a autonomia econômica das mulheres não significa apenas criar oportunidades de geração de renda, mas fortalecer caminhos para que elas reconheçam seus saberes, ampliem sua participação social e exerçam plenamente o direito de decidir sobre a própria vida.

Você também pode gostar:

Escuta, acolhimento e autonomia marcam 11º encontro do Curso de Educadoras Populares

A atenção psicossocial às mulheres em situação de violência foi o tema do 11º encontro do Curso de Educadoras Populares no Enfrentamento à Violência...

Agricultura familiar amplia diálogo sobre comercialização em encontro na CEAGESP

Representantes de organizações, cooperativas e instituições ligadas à agricultura familiar participaram, no dia 28 de agosto, do Encontro Agricultura Familiar e CEAGESP, realizado na...

19º Encontro dos Povos Indígenas fortalece culturas, territórios e economia solidária indígena em Guarulhos

Entre os dias 21 e 23 de agosto, a Aldeia Multiétnica Filhos Desta Terra, em Guarulhos (SP), recebeu o 19º Encontro dos Povos Indígenas....

Formação na Cooperleste fortalece gestão e participação dos catadores

Catadoras e catadores de materiais recicláveis da Cooperativa de Trabalho dos Profissionais da Reciclagem de Materiais de São Mateus (Cooperleste) participaram, no dia 7...