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Unisol Brasil fortalece debate sobre autogestão e empresas recuperadas em Sergipe

A Unisol Brasil participou, nesta quinta-feira (23), em Aracaju (SE), do Workshop “Empresas Recuperadas e Empreendimentos Coletivos: Autogestão, Economia Solidária e Trabalho Digno”. Realizado no auditório da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em Sergipe, o encontro reuniu trabalhadores, dirigentes sindicais, representantes de cooperativas, universidades, poder público e organizações da sociedade civil.

A secretária-geral da Unisol Brasil, Magda de Almeida, e o presidente da Uniforja, Maurício da Costa, participaram da mesa de abertura. A programação colocou no centro do debate a gestão dos empreendimentos pelos próprios trabalhadores como alternativa para enfrentar o desemprego, a desindustrialização e o fechamento de postos de trabalho no país.

O workshop marcou a realização, pela primeira vez em Sergipe, de uma discussão ampla sobre empresas recuperadas e empreendimentos coletivos. Ao longo do dia, foram compartilhadas experiências práticas, desafios jurídicos, necessidades de formação e propostas para fortalecer as políticas públicas voltadas à economia solidária e ao cooperativismo.

Unisol defende debate realista sobre desafios e avanços

Durante sua intervenção, Magda de Almeida destacou o papel da Unisol Brasil no fortalecimento das redes de economia solidária e no acompanhamento das cooperativas, especialmente nos períodos de crise. Presente em 26 estados, a Central atua na organização dos empreendimentos, na articulação de políticas públicas e na troca de experiências entre trabalhadores e trabalhadoras.

Para Magda, falar sobre autogestão também exige reconhecer, com transparência, os desafios cotidianos enfrentados pelos empreendimentos. “Precisamos falar dos desafios e dos avanços sem colorir muito, mas falar daquilo que é real, porque todos nós já somos forjados na luta”, afirmou.

A secretária-geral comparou a construção da economia solidária à produção de um artesanato, no qual diferentes linhas se encontram para formar algo maior. Segundo ela, espaços como o workshop fortalecem a união, possibilitam a troca de conhecimentos e renovam a disposição dos trabalhadores para continuar organizados.

Magda também ressaltou a importância das experiências nacionais e internacionais conhecidas e compartilhadas pela Unisol Brasil. Ao longo de sua trajetória, a Central tem promovido intercâmbios com iniciativas consolidadas de países como Espanha, Itália, Canadá, Argentina e Uruguai, ampliando as referências para o desenvolvimento do cooperativismo e da autogestão no Brasil.

Uniforja mostra que trabalhadores podem recuperar e administrar empresas

Um dos principais exemplos apresentados durante o encontro foi o da Uniforja, empresa recuperada e administrada pelos trabalhadores. O presidente da cooperativa, Maurício da Costa, relatou a trajetória iniciada após a falência da antiga Conforja, em 1998, quando todos os funcionários foram demitidos e ficaram sem perspectivas de emprego e renda.

Diante da crise, os trabalhadores se organizaram inicialmente em quatro cooperativas, posteriormente unificadas na Uniforja. Em 2005, ao receberem parte dos direitos trabalhistas atrasados, cumpriram um acordo coletivo e investiram na compra e na recuperação da fábrica.

A cooperativa ocupa uma área industrial de 65 mil metros quadrados e opera equipamentos de grande porte, como prensas com capacidade entre quatro mil e 13 mil toneladas. Em 2008, chegou a alcançar um faturamento anual de R$250 milhões.

Para adquirir a massa falida, os trabalhadores contaram com financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), posteriormente quitados integralmente.

“Trabalhadores também pagam empréstimo”, destacou Maurício, ao lembrar que a experiência da Uniforja ajudou a enfrentar o preconceito de que cooperativas formadas por trabalhadores não seriam capazes de honrar seus compromissos.

Atualmente, a Uniforja reúne 170 cooperados e 130 trabalhadores contratados pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Após três anos de atuação e participação nas assembleias, os funcionários podem ser aprovados para ingressar na cooperativa, reinvestindo parte da rescisão para se tornarem cooperados.

Autogestão exige responsabilidade e inovação

Maurício também apresentou os desafios atuais enfrentados pela Uniforja. Entre eles estão a concorrência com produtos importados, principalmente da China e da Índia, a necessidade de modernização dos equipamentos e a busca por mais produtividade sem eliminar os postos de trabalho.

Segundo o presidente, muitas concorrentes internacionais operam fábricas altamente automatizadas, enquanto a Uniforja ainda utiliza máquinas fabricadas na década de 1950. O desafio é incorporar tecnologia, ampliar a escala de produção e manter o compromisso social com o trabalho e a geração de renda.

“A autogestão exige metas, responsabilidade, cobrança e diálogo permanente. O cooperativismo não pode ser tratado como um espaço sem regras”, defendeu. Para ele, a sobrevivência de uma empresa recuperada depende da participação consciente dos cooperados e da capacidade coletiva de tomar decisões difíceis.

Formação, crédito e políticas públicas

O workshop também discutiu a necessidade de modernização da legislação cooperativista, especialmente a Lei nº 5.764/1971, considerada defasada diante da realidade dos empreendimentos autogeridos. Outro tema abordado foi a aplicação da Lei nº 12.690/2012 e seus impactos sobre as cooperativas de trabalho. 

Os participantes defenderam a construção de um ecossistema permanente de apoio às empresas recuperadas, com linhas de crédito adequadas, assistência técnica, formação política e profissional e maior participação das universidades e dos institutos federais.

A programação contou ainda com a participação do professor Henrique Novaes, pesquisador das experiências de fábricas recuperadas no Brasil e na Argentina. Ele alertou para a necessidade de diferenciar a economia solidária de soluções baseadas apenas no empreendedorismo individual e destacou que nenhuma cooperativa conseguirá enfrentar sozinha as pressões do mercado.

Encontro gera encaminhamentos para Sergipe

Além dos debates, o workshop produziu encaminhamentos voltados ao fortalecimento da economia solidária e da autogestão. Entre eles, a aprovação da “Carta de Aracaju” pela Autogestão e de uma moção de apoio às catadoras de mangaba da Barra dos Coqueiros, ameaçadas de perder seus territórios tradicionais de trabalho devido à especulação imobiliária.

Durante o encontro, também foi anunciada a apresentação de um projeto de Lei Municipal de Economia Solidária à Câmara de Vereadores de Aracaju. A proposta busca criar instrumentos de reconhecimento, regularização e apoio aos empreendimentos solidários do município.

“A participação da Unisol Brasil reforçou o compromisso da entidade com a defesa das empresas recuperadas, do trabalho associado e da autogestão como estratégias concretas de preservação dos empregos, distribuição de renda e democratização da economia”, finalizou Magda.

Assista o Workshop “Empresas Recuperadas e Empreendimentos Coletivos: Autogestão, Economia Solidária e Trabalho Digno” na íntegra:

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