“Quem cuida das mulheres que cuidam de todos?” A pergunta feita pela sanitarista e educadora Ubiraci Matildes de Jesus atravessou o 13º encontro do Curso de Educadoras Populares no Enfrentamento à Violência contra a Mulher, realizado de forma on-line pela Unisol Brasil, no dia 3 de setembro.
Com o tema “Fundamentos da Saúde”, a atividade reuniu mulheres de diferentes idades, trajetórias e territórios. Durante o encontro, experiências pessoais se encontraram com informações sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), saúde da população negra, racismo institucional, saúde mental, direitos e políticas públicas.
Na abertura, a secretária-geral da Unisol Brasil, Magda Almeida, destacou que a formação tem construído um espaço de acolhimento, aprendizado e fortalecimento coletivo.
“Este encontro é um local de aprendizado, de troca de experiências, de fortalecimento e, mais do que tudo, de construção de uma grande rede de mulheres potentes, cada uma em seu território, lutando no dia a dia”, afirmou.
Segundo Magda, o objetivo do curso é fazer com que os conhecimentos compartilhados ultrapassem os encontros e cheguem às comunidades onde as participantes atuam.
“A proposta é sermos multiplicadoras em nossas comunidades e em nossos territórios, a partir do trabalho que já realizamos em nossas bases. O conhecimento não pode ficar somente aqui. Precisamos levá-lo ao maior número possível de mulheres e fortalecer a nossa luta”, ressaltou a secretária-geral da Unisol Brasil.

Saúde também é dignidade, autonomia e proteção
Convidada para conduzir a formação, Ubiraci Matildes de Jesus trouxe uma longa trajetória de atuação na defesa da equidade racial e da saúde da população negra. Graduada em Administração, sanitarista e assessora especial da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais da Bahia, ela relacionou o direito à saúde com as condições concretas de vida das mulheres.
“Saúde não é apenas a ausência de doença. Saúde é bem-estar social, mental, econômico e espiritual. É ter qualidade de vida”, explicou.
Para Ubiraci, o racismo precisa ser reconhecido como um grave problema de saúde pública. Seus efeitos aparecem no acesso desigual aos serviços, na falta de acolhimento, no sofrimento mental, na precarização do trabalho e nas diferentes formas de violência enfrentadas especialmente por mulheres negras, indígenas, quilombolas e moradoras das periferias.
A educadora também defendeu uma atuação baseada na realidade de cada comunidade e na união entre os saberes científicos, populares e tradicionais.
“A educação popular parte do território e da realidade de cada pessoa. Ela valoriza os saberes e as experiências das comunidades e ajuda a formar mulheres multiplicadoras, capazes de orientar, acolher e transformar realidades”, afirmou.
Ubiraci ressaltou que a violência contra a mulher não pode ser tratada como um problema individual. O enfrentamento exige uma rede preparada para acolher sem julgamentos, orientar sobre direitos e garantir acompanhamento contínuo.
“Às vezes, a mulher permanece em uma relação violenta porque existe dependência econômica ou emocional. Não cabe perguntar por que ela continua ali. É preciso escutar, acolher e construir caminhos de proteção e autonomia”, alertou.
Para ela, esse trabalho deve envolver unidades de saúde, escolas, universidades, sindicatos, movimentos sociais, conselhos de políticas públicas e organizações comunitárias. A formação dos homens também foi apontada como parte necessária da transformação cultural e da prevenção da violência.

Vivências que se transformam em luta coletiva
As falas das participantes mostraram que os temas debatidos fazem parte do cotidiano de mulheres em diferentes regiões do país.
Divaneide Souza chamou a atenção para o racismo percebido nos serviços públicos e para a necessidade de organização coletiva. “Nós somos cidadãs, pagamos impostos e merecemos respeito. Precisamos nos unir, exigir nossos direitos e ser tratadas como gente em todos os espaços, seja no posto de saúde, no hospital ou na delegacia”, declarou.
Walneide Mendes, que já havia acompanhado a atuação de Ubiraci em outros espaços, destacou a importância de compreender como a violência e o racismo também atravessam a saúde.
“Essa formação nos ajuda a abrir caminhos. Quando entendemos as políticas públicas e reconhecemos as violências que estão infiltradas nos atendimentos e nas instituições, conseguimos nos fortalecer para agir”, afirmou.
Diretamente do Morro do Vital Brasil, em Niterói, Celecina Rodrigues definiu a formação como um espaço de pertencimento e proteção. “Estar entre as nossas tem sido um espaço de aquilombamento. São momentos em que aprendemos, ensinamos e percebemos que não estamos sozinhas”, disse, emocionada.
A jovem Talita Moreira, de 21 anos e estudante da área da saúde, relatou uma situação na qual teve sua dor minimizada durante um atendimento. A experiência reforçou para ela a importância de uma nova geração de mulheres conhecer seus direitos e não aceitar a naturalização do sofrimento.
“Nenhuma mulher deve ter sua dor tratada como algo normal. A nossa geração precisa saber que não deve passar por isso calada, principalmente as mulheres negras, que ainda enfrentam tantas violências nos serviços de saúde”, afirmou.
Conhecimento para romper silêncios
Ao longo do encontro, as participantes também refletiram sobre o papel dos conselhos de saúde, a necessidade de formação permanente para profissionais do SUS, o registro adequado do quesito raça e cor e a importância da autonomia econômica para que mulheres consigam romper situações de violência.
Ubiraci lembrou que a educação popular pode aproximar as políticas públicas da vida concreta das comunidades. Para isso, é preciso formar redes capazes de ouvir, orientar, encaminhar e acompanhar cada mulher com respeito e responsabilidade.
“Sozinhas, não fazemos nada. Quando nos juntamos, conseguimos transformar. A educação popular fortalece a autonomia, os vínculos e a participação da comunidade”, concluiu.
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