NotíciasCuidado feminista ganha dimensão política em formação da Unisol Brasil

Cuidado feminista ganha dimensão política em formação da Unisol Brasil

O cuidado não deve ser entendido apenas como uma responsabilidade individual ou uma atribuição natural das mulheres. Ele também é um direito, uma prática política e uma responsabilidade que precisa ser compartilhada pela sociedade e pelo Estado. Essa reflexão marcou o quarto encontro do Curso de Educadoras Populares no Enfrentamento à Violência contra a Mulher, promovido pela Unisol Brasil.

Realizada de forma on-line no dia 18 de junho, a atividade reuniu cerca de 40 participantes de diferentes estados. Com o tema “Cuidado feminista e autocuidado”, o encontro proporcionou um espaço de formação, troca de experiências e reflexão sobre a sobrecarga enfrentada pelas mulheres, especialmente aquelas que atuam nos movimentos sociais, nas comunidades, nos empreendimentos solidários e nas organizações populares.

À frente do projeto, a secretária-geral da Unisol Brasil, Magda de Almeida, destacou que o curso busca construir uma grande rede de educadoras populares, reunindo diferentes experiências e trajetórias no enfrentamento à violência contra as mulheres.

“Não existe quem sabe mais ou quem sabe menos. Existem olhares, experiências e trajetórias diferentes, mas todas elas se somam. A proposta é promover essa troca e fortalecer essa grande rede de educadoras populares”, afirmou Magda.

A formação foi conduzida por Luciana Mota, mestranda pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e bacharela em Comunicação Social. Com experiência na gestão pública e atuação em políticas de gênero, raça, cultura e inclusão socioprodutiva, ela é superintendente de Promoção da Inclusão Socioprodutiva da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Bahia. Luciana também possui experiência em instituições como a Fundação Pedro Calmon, a Fundação Cultural Palmares e a própria SPM-BA.

Cuidado como resistência

Durante o encontro, Luciana convidou as participantes a ampliarem a compreensão sobre o significado do cuidado. Segundo ela, o tema não pode permanecer restrito à vida privada nem ser tratado como uma obrigação exclusiva das mulheres.

“O cuidado é muito mais do que um ato privado. É uma prática política, coletiva e transformadora. O autocuidado é um ato de resistência essencial para manter a nossa luta viva”, explicou.

A facilitadora abordou a divisão sexual do trabalho e a naturalização das tarefas domésticas e de cuidado como responsabilidades femininas. Essa realidade, segundo ela, provoca impactos históricos e cotidianos na vida das mulheres, que muitas vezes acumulam o trabalho remunerado, as atividades domésticas e os cuidados com crianças, pessoas idosas, familiares doentes ou pessoas com deficiência.

“Quando falamos em divisão sexual do trabalho, estamos falando sobre o que a sociedade determina como tarefa de homem e como tarefa de mulher. Mesmo estando no mercado de trabalho, as mulheres continuam sendo as principais responsáveis pelas atividades domésticas e pelo cuidado”, ressaltou.

Luciana também chamou atenção para as desigualdades de gênero, raça e classe presentes nessa organização social. As mulheres negras, pobres e trabalhadoras domésticas estão entre as mais atingidas pela desvalorização e pela invisibilidade do trabalho de cuidado.

Autocuidado não é egoísmo

A formação também questionou a ideia de que reservar tempo para descansar, estabelecer limites ou realizar atividades prazerosas seria um comportamento egoísta. Para Luciana, o autocuidado é uma condição necessária para que as mulheres preservem a saúde, construam autonomia e sustentem suas lutas no longo prazo.

“Cuidar de si é uma condição inegociável para cuidar das outras e sustentar a luta. As práticas de autocuidado incluem descanso, prazer, estabelecimento de limites, vida em comunidade e alegria”, afirmou.

As participantes compartilharam experiências sobre exaustão, saúde mental, ausência de tempo livre, excesso de cobranças e dificuldade para acessar políticas públicas. Também foram relatadas situações nas quais as mulheres se sentem culpadas quando deixam de atender às necessidades da família para cuidar de si mesmas.

Magda de Almeida relacionou essa realidade ao cotidiano das mulheres que atuam na Economia Popular e Solidária e nos movimentos sociais.

“O tema do autocuidado e do cuidado feminista nos toca profundamente, porque estamos vendo as mulheres adoecerem. Muitas vezes, mesmo dentro do movimento, não nos permitimos descansar ou fazer algo por nós. Vivemos em uma maratona constante e, quando não estabelecemos limites, o corpo responde com exaustão”, alertou a secretária-geral.

Redes coletivas e políticas públicas

Outro ponto do encontro foi a importância das redes comunitárias de solidariedade. Grupos de mães, coletivos feministas, associações, cooperativas, terreiros e organizações populares foram apresentados como espaços históricos de acolhimento, resistência e apoio mútuo.

“Redes de cuidado coletivo são estratégias históricas de sobrevivência e resistência. O cuidado coletivo fortalece a autonomia individual e a potência política de cada grupo”, destacou Luciana.

A facilitadora também apresentou reflexões sobre a Política Nacional de Cuidados e a necessidade de os estados e municípios desenvolverem ações voltadas tanto às pessoas que precisam de cuidado quanto àquelas que cuidam. O debate envolve crianças, adolescentes, pessoas idosas, pessoas com deficiência, trabalhadoras domésticas e cuidadoras remuneradas ou não remuneradas.

Para Luciana, a efetivação dessas políticas depende da participação dos movimentos sociais, das universidades e das organizações comunitárias, que conhecem as necessidades específicas de cada território.

Ao avaliar o encontro, Magda ressaltou que os conteúdos compartilhados pelas facilitadoras serão organizados e disponibilizados às participantes. A proposta é transformar os debates em módulos formativos e aprofundar os temas apontados pelas educadoras.

“Temos o compromisso de multiplicar esse conhecimento. Os encontros são provocativos porque estamos aprendendo juntas e identificando assuntos que precisam ser aprofundados em outros espaços e momentos”, afirmou.

E Luciana Mota finaliza: “O cuidado não termina aqui. Ele continua em cada ato do nosso cotidiano. Hoje, a Economia Solidária e este curso estão criando uma rede de cuidado e autocuidado”.

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