NotíciasEscuta, acolhimento e autonomia marcam 11º encontro do Curso de Educadoras Populares

Escuta, acolhimento e autonomia marcam 11º encontro do Curso de Educadoras Populares

A atenção psicossocial às mulheres em situação de violência foi o tema do 11º encontro do Curso de Educadoras Populares no Enfrentamento à Violência contra a Mulher, realizado on-line pela UNISOL Brasil, no dia 20 de agosto. A formação reuniu mulheres de diferentes regiões do Brasil e contou com a participação da assistente social e mestre em Ciências Sociais Jaqueline Gomes do Amaral.

Ao longo do encontro, as participantes compartilharam experiências de atuação em cooperativas, associações, coletivos feministas, comunidades rurais, empreendimentos da economia solidária e organizações sociais. A diversidade de territórios e trajetórias contribuiu para uma reflexão ampla sobre as diferentes formas de violência, os desafios para o acesso à proteção e o papel das educadoras populares na construção de redes de cuidado.

Para Magda Almeida, secretária-geral da UNISOL Brasil, a formação fortalece a capacidade de atuação das mulheres em seus territórios e reafirma o compromisso da entidade com a construção de espaços seguros, solidários e livres de violência.

“Formar educadoras populares é fortalecer mulheres que já exercem um papel fundamental em suas cooperativas, associações e comunidades. Quando uma mulher aprende a reconhecer as diferentes formas de violência, acolher sem julgar e orientar sobre os caminhos de proteção, esse conhecimento se transforma em uma ferramenta coletiva de cuidado e defesa da vida. Para a UNISOL Brasil, autonomia econômica, trabalho digno e enfrentamento à violência precisam caminhar juntos”, afirmou Magda Almeida.

Acolher é reconhecer a mulher em sua realidade

Durante a formação, Jaqueline explicou que a atenção psicossocial exige compreender a mulher de maneira integral, considerando não apenas a violência sofrida, mas também suas condições emocionais, familiares, econômicas, culturais, comunitárias e territoriais.

“A atenção psicossocial acontece quando olhamos para a mulher dentro de uma esfera que envolve o emocional, o psicológico, o social, a família, a situação econômica, a cultura, a comunidade e o território em que ela vive”, explicou.

A educadora ressaltou que o primeiro contato pode ser decisivo para a construção de um vínculo de confiança. Por isso, a escuta deve acontecer sem julgamentos, pressões ou questionamentos que culpabilizem a mulher.

Frases como “por que você não saiu antes?” devem ser substituídas por afirmações que transmitam segurança, como “eu acredito em você”, “você não precisa passar por isso sozinha” e “podemos pensar juntas nos caminhos possíveis”.

“É preciso acolher e não decidir pela mulher. Ela precisa construir seus próprios caminhos. Nosso papel é apresentar possibilidades, informar sobre os direitos e mostrar que ela não está sozinha”, afirmou Jaqueline.

A formação também chamou a atenção para os riscos da revitimização. Quando uma mulher precisa repetir sua história em cada serviço procurado, pode voltar a vivenciar o sofrimento e o trauma. Por isso, a articulação entre os diferentes equipamentos da rede é essencial para garantir um atendimento mais humano, integrado e responsável.

Violências assumem diferentes formas

O encontro abordou as violências física, psicológica, sexual, moral, patrimonial, institucional, digital e vicária. Jaqueline explicou que muitas dessas agressões não deixam marcas visíveis e, por isso, podem demorar a ser reconhecidas pela própria mulher e pelas pessoas próximas.

Controle do celular, das roupas, do dinheiro e das amizades; humilhações; ameaças; destruição de objetos; exposição de imagens; impedimento de trabalhar ou estudar e isolamento da família e da comunidade são alguns dos sinais que precisam ser observados.

A palestrante também destacou que romper uma relação violenta pode ser um processo longo, atravessado pela dependência financeira e emocional, pelo medo, pela preocupação com os filhos, pela ausência de serviços públicos e pelo enfraquecimento dos vínculos comunitários.

“A mulher não é responsável pela violência que sofre. Muitas vezes, a sociedade pergunta por que ela não saiu antes, mas não considera todas as condições econômicas, sociais, culturais e afetivas envolvidas nessa decisão”, reforçou.

Raça, território e acesso aos direitos

A abordagem interseccional foi outro ponto central da formação. Embora a violência possa atingir mulheres de todas as classes sociais, algumas enfrentam maiores barreiras para acessar informação, proteção e justiça.

Mulheres negras, indígenas, periféricas, rurais, com deficiência, lésbicas e trans, entre outros grupos, podem vivenciar formas específicas de violência e discriminação. Para Jaqueline, essa realidade exige que as estratégias de acolhimento considerem as características de cada território e as formas pelas quais as mulheres recebem informação.

Como exemplo, ela mencionou comunidades nas quais o rádio ainda é o principal meio de comunicação e orientação. Dessa forma, aproximar as políticas públicas da realidade local é parte fundamental do trabalho de prevenção.

A dimensão internacional do debate apareceu na participação de Adama Arora Baldé, da Guiné-Bissau. Ela relatou como estruturas familiares, culturais, religiosas e jurídicas podem dificultar o rompimento de situações de violência, especialmente em casos de casamentos forçados e de ausência de serviços públicos próximos às comunidades.

“Às vezes, não é que a mulher não queira sair da violência. Existe todo um conjunto de estruturas que não a ampara”, observou Adama.

Economia solidária também constrói redes de cuidado

As participantes destacaram que cooperativas, associações, feiras e coletivos da economia solidária podem funcionar como espaços de convivência, autonomia e proteção. Além de gerar trabalho e renda, esses ambientes possibilitam que as mulheres criem vínculos, compartilhem experiências e reconheçam situações de violência que, muitas vezes, permaneciam naturalizadas.

Celecina Rodrigues, de Niterói, chamou a atenção para a violência patrimonial vivenciada por artesãs e trabalhadoras da economia solidária. Segundo ela, há mulheres que escondem dos companheiros o quanto venderam nas feiras por medo de cobranças e agressões.

A experiência demonstra que a autonomia econômica precisa caminhar ao lado do fortalecimento emocional, da informação sobre direitos e da existência de uma rede capaz de acolher e encaminhar as mulheres com segurança.

“Cuidar é construir uma rede. Precisamos acolher com afeto, orientar e ajudar cada mulher a encontrar os caminhos de proteção”, afirma ela. 

Rede de proteção precisa estar presente nos territórios

Entre os serviços mencionados durante a formação estiveram CRAS, CREAS, unidades de saúde, CAPS, delegacias, Defensoria Pública, Ministério Público, Poder Judiciário, secretarias e conselhos de direitos das mulheres, Casas da Mulher Brasileira e organizações comunitárias.

O debate apontou, entretanto, que esses equipamentos não estão disponíveis da mesma maneira em todos os municípios. Além da criação dos serviços, é necessário garantir orçamento, equipes capacitadas e integração entre as políticas públicas.

“Política para as mulheres não se faz sem orçamento”, alertou Jaqueline.

Magali Mendes, de Campinas, reforçou que o enfrentamento à violência não pode depender apenas da solidariedade individual. Para ela, as redes comunitárias são fundamentais, mas o Estado precisa assumir sua responsabilidade e assegurar políticas públicas em todo o país.

“Nós precisamos acolher quem está ao nosso redor, mas também lutar para que existam serviços e profissionais capacitados em todos os territórios”, afirmou.

Prevenção também envolve os homens

Outro eixo do encontro foi a necessidade de desenvolver ações educativas e reflexivas com os homens. Jaqueline apresentou sua experiência em um grupo voltado a autores de violência doméstica submetidos a medidas protetivas. A iniciativa trabalha temas como masculinidades, machismo, relações familiares, divisão do trabalho doméstico, saúde dos homens e responsabilização pelos atos praticados.

Segundo ela, a Lei Maria da Penha reúne três dimensões: proteção, prevenção e punição. Os grupos reflexivos fazem parte do trabalho preventivo e buscam impedir a repetição da violência em relacionamentos futuros.

Vitória Vitor, da Paraíba, compartilhou a experiência de um encontro que reuniu 68 homens do campo interessados em compreender comportamentos violentos muitas vezes naturalizados pela educação recebida.

“Trabalhar a violência apenas de um lado não será suficiente. Os homens também precisam compreender o que é violência e participar desse processo de transformação”, defendeu Vitória.

Educação popular para construir autonomia

No encerramento, Jaqueline reafirmou que o trabalho das educadoras populares não consiste em falar em nome das mulheres ou determinar o que elas devem fazer. Sua tarefa é criar condições para que cada mulher conheça seus direitos, fortaleça sua autonomia e tome decisões sobre a própria vida.

“A educação popular não fala pela mulher. Ela cria condições para que a mulher possa falar, compreender seus direitos e construir seus próprios caminhos”, resumiu.

O 11º encontro reforçou três palavras que atravessaram toda a formação: escutar, acolher e encaminhar. Ao reunir conhecimentos técnicos e experiências construídas nos territórios, o Curso de Educadoras Populares fortalece mulheres para atuarem como multiplicadoras de informação, cuidado e defesa de direitos em suas comunidades.

“Promover esses espaços de formação também significa reconhecer que a economia solidária é feita por pessoas e que não existe trabalho digno, autonomia econômica ou desenvolvimento comunitário sem o enfrentamento a todas as formas de violência contra as mulheres”, finaliza Magda.

Você também pode gostar:

UNISOL Brasil fortalece o debate sobre autonomia econômica e direitos das mulheres

A autonomia econômica como caminho para romper ciclos de violência, ampliar a liberdade de escolha e fortalecer a participação das mulheres na sociedade foi...

Agricultura familiar amplia diálogo sobre comercialização em encontro na CEAGESP

Representantes de organizações, cooperativas e instituições ligadas à agricultura familiar participaram, no dia 28 de agosto, do Encontro Agricultura Familiar e CEAGESP, realizado na...

19º Encontro dos Povos Indígenas fortalece culturas, territórios e economia solidária indígena em Guarulhos

Entre os dias 21 e 23 de agosto, a Aldeia Multiétnica Filhos Desta Terra, em Guarulhos (SP), recebeu o 19º Encontro dos Povos Indígenas....

Formação na Cooperleste fortalece gestão e participação dos catadores

Catadoras e catadores de materiais recicláveis da Cooperativa de Trabalho dos Profissionais da Reciclagem de Materiais de São Mateus (Cooperleste) participaram, no dia 7...