A autodefesa feminista como instrumento de autonomia, proteção e transformação coletiva foi tema do nono encontro do Curso de Educadoras Populares no Enfrentamento à Violência contra a Mulher, promovido pela UNISOL Brasil. Realizada de forma on-line na última quinta-feira (6), a atividade reuniu mulheres de diferentes cidades, movimentos sociais, coletivos e empreendimentos da Economia Popular e Solidária.
O nono encontro foi conduzido pela advogada Amanda Lemes, mestre em Políticas Públicas e Gestão, ex-investigadora da Polícia Civil do Paraná, fundadora da Empodere-se e criadora da metodologia de Autodefesa Feminina que orienta o trabalho da organização. Militante feminista há 26 anos, Amanda também coordenou o primeiro projeto de formação de multiplicadoras em autodefesa feminina realizado por meio de edital de fomento do Ministério das Mulheres.
Durante a atividade, ela destacou que a autodefesa feminista não se limita ao aprendizado de movimentos físicos. A proposta envolve reconhecer situações de violência, estabelecer limites, utilizar a voz, acessar direitos, buscar apoio e fortalecer a organização coletiva das mulheres.
“A violência contra a mulher não é sobre força, é sobre poder. E a autodefesa feminina também não é sobre força, é sobre empoderamento coletivo”, afirmou Amanda.
Da dor à potência coletiva
A formação começou com uma reflexão sobre as diferentes experiências de ser mulher na sociedade. Sentimentos como medo, culpa, insegurança, sobrecarga, solidão e dificuldade para pedir ajuda apareceram nos relatos compartilhados pelas participantes.
Amanda ressaltou que essas experiências não devem ser compreendidas somente como situações individuais, pois estão relacionadas a uma estrutura social que produz desigualdades e violências contra as mulheres. Também chamou a atenção para os diferentes impactos vividos por mulheres negras, indígenas, quilombolas, lésbicas e transexuais.
“A proposta é construir uma experiência de ser mulher que não parta somente da dor, mas também da potência e da potência coletiva do que é ser mulher no mundo”, explicou.
Para aprofundar o debate, foi exibido um minidocumentário sobre uma experiência de formação de multiplicadoras em autodefesa feminina realizada em Campinas, no interior de São Paulo. O projeto formou mulheres para compartilharem os conhecimentos adquiridos em suas comunidades, ampliando o acesso à informação, aos direitos e às estratégias de proteção.

Cinco princípios da autodefesa
Um dos principais conteúdos trabalhados durante a aula foi o protocolo dos cinco princípios da autodefesa feminista: pensar, usar a voz, sair, lutar e contar.
O primeiro princípio está relacionado à capacidade de reconhecer uma situação de violência e confiar nos próprios sentimentos e percepções. O segundo aborda o uso da voz para estabelecer limites, dizer não, pedir ajuda e denunciar. O terceiro reforça que sair de uma situação ou de uma relação abusiva pode ser difícil, mas é um caminho possível quando acompanhado por uma rede de apoio.
O princípio de lutar envolve tanto a proteção física quanto a luta pelo acesso aos direitos, pelo registro de ocorrências, pela obtenção de medidas protetivas e pelo atendimento adequado nos serviços públicos. Já o ato de contar permite romper o silêncio, compartilhar experiências e construir redes de cuidado entre mulheres.
“Da maior parte das violências e da estrutura que sustenta essas violências, é juntas que a gente se defende. É constituindo comunidades de mulheres que se defendem que conseguimos transformar essa realidade”, destacou Amanda.
As participantes também realizaram exercícios básicos relacionados à postura corporal, à proteção e ao uso da voz. A atividade mostrou que reconhecer o próprio corpo como um espaço de autonomia e poder também faz parte do processo de enfrentamento às violências.
Conhecimento que chega aos territórios
As mulheres presentes compartilharam experiências pessoais, familiares e comunitárias, ressaltando a necessidade de levar o debate sobre prevenção às violências e autodefesa para escolas, comunidades, organizações sociais e outros espaços de convivência.
O Curso de Educadoras Populares tem justamente o objetivo de preparar as participantes para multiplicar os conhecimentos construídos durante a formação. Ao final do percurso, cada educadora terá a missão de desenvolver atividades com, pelo menos, outras 30 mulheres em seu território.
Para a secretária-geral da UNISOL Brasil, Magda Almeida, a formação contribui para ampliar a capacidade de organização, acolhimento e mobilização das mulheres em diferentes regiões do país.
“Quando uma mulher acessa o conhecimento, reconhece seus direitos e encontra apoio para compartilhar suas experiências, ela fortalece não apenas a si mesma, mas também outras mulheres ao seu redor. Queremos que cada educadora leve esse aprendizado para seu território e ajude a construir redes permanentes de proteção, autonomia e solidariedade”, afirmou Magda.
A iniciativa fortalece uma rede nacional de educadoras populares capazes de acolher, orientar e mobilizar mulheres, articulando o enfrentamento à violência com os princípios da solidariedade, da autonomia e da organização coletiva.
Ao encerrar sua participação, Amanda reforçou que o direito à defesa também está relacionado ao cuidado consigo mesma.
“Fomos ensinadas a entregar todo o amor que temos aos outros, mas é preciso entregar esse mesmo amor a nós mesmas. Defender-se é um ato de amor-próprio”, concluiu.

