O enfrentamento à violência contra as mulheres exige informação, políticas públicas, autonomia e organização coletiva. Essa perspectiva orientou o sétimo encontro do Curso de Educadoras Populares no Enfrentamento à Violência contra a Mulher, realizado pela UNISOL Brasil no dia 23 de julho. A atividade on-line reuniu participantes de diferentes estados em torno do tema “Leitura de conjuntura”, com a contribuição da socióloga e educadora popular Josiane Mendes.
Secretária-geral da UNISOL Brasil, Magda de Almeida destacou o caráter coletivo da formação e o compromisso da entidade em fazer com que os conteúdos debatidos cheguem às mulheres nos diferentes territórios.
“Não poderíamos deixar de estar aqui com vocês. A proposta é compartilhar aprendizados e organizar materiais e referências para que esse conteúdo chegue a todas”, afirmou Magda.
O encontro abordou a violência de gênero como um problema estrutural que precisa ser compreendido para além dos casos individuais. A leitura de conjuntura proposta durante a formação relacionou as situações de violência às desigualdades de raça, classe, território e geração, assim como à divisão sexual do trabalho, à sobrecarga do cuidado e à baixa participação das mulheres nos espaços de poder e decisão.
Subsecretária de Políticas para as Mulheres do Governo do Rio Grande do Norte, Josiane Mendes ressaltou que compreender a realidade é o primeiro passo para transformá-la. Socióloga pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), especialista em Gestão de Políticas Públicas, educadora popular e militante dos direitos humanos, ela possui trajetória na gestão pública, nos movimentos sociais, na assistência social e na economia solidária.
“A leitura de conjuntura é olhar para além dos acontecimentos, entender suas causas, identificar seus impactos e, sobretudo, reconhecer as possibilidades de transformação”, explicou.

Direitos são resultado da organização das mulheres
Ao analisar a realidade brasileira, Josiane recuperou a trajetória histórica das mulheres e lembrou que conquistas como o direito ao voto, à educação, ao trabalho, à participação política e à proteção contra a violência foram construídas por meio de mobilização social.
“Quando falamos das mulheres brasileiras, estamos falando de uma história marcada por muita resistência, coragem e organização coletiva. Nada do que hoje reconhecemos como direito foi concedido de forma espontânea”, afirmou.
Essa organização também foi apontada como fundamental para a criação e o fortalecimento de conselhos de direitos, conferências, organismos municipais e estaduais de políticas para as mulheres, delegacias especializadas, casas de acolhimento, patrulhas de proteção e outros equipamentos públicos.
Josiane apresentou experiências desenvolvidas no Rio Grande do Norte e destacou que a atuação articulada entre segurança pública, assistência social, saúde, educação, sistema de Justiça e sociedade civil é indispensável para garantir atendimento integral às mulheres.
Para a educadora, a presença dos movimentos sociais nos espaços de participação e controle social é determinante para transformar as demandas das mulheres em políticas públicas, programas, orçamento e legislação.
“Se hoje temos serviços, leis e equipamentos de proteção, isso é resultado da luta das mulheres. Por isso, é fundamental fortalecer a participação social nos conselhos, comitês e conferências”, defendeu.

Violência contra as mulheres é uma questão pública
O debate também chamou a atenção para os índices de feminicídio, violência doméstica, violência sexual, perseguição e violência psicológica. Mais do que números, esses registros representam vidas interrompidas, famílias afetadas e direitos que continuam sendo violados.
Josiane ressaltou que a violência não atinge todas as mulheres da mesma maneira. Mulheres negras, pobres, com deficiência, moradoras de áreas rurais e periferias, mulheres trans e aquelas que vivem em territórios com menor presença dos serviços públicos enfrentam formas específicas e agravadas de exclusão e vulnerabilidade.
“A violência contra as mulheres não é um problema privado. É uma questão pública, que exige respostas articuladas do Estado e da sociedade, políticas estruturadas, investimento, integração entre os serviços, participação social e compromisso permanente com a igualdade”, afirmou.
Nesse processo, as educadoras populares desempenham um papel estratégico. Ao conhecerem os direitos, as redes de atendimento e os canais de denúncia, elas podem compartilhar informações, orientar outras mulheres e contribuir para identificar situações de violência em suas comunidades.
Durante a formação, também foi reforçada a importância do Ligue 180 para orientações e denúncias e do telefone 190 para situações de emergência que exijam atendimento policial imediato.
Economia solidária como caminho para a autonomia
O encontro relacionou o enfrentamento à violência com a construção da autonomia econômica, emocional, social e política das mulheres. Romper com um ciclo de violência depende não apenas da proteção imediata, mas também do acesso ao trabalho, à renda, à moradia, à qualificação profissional, ao cuidado e a redes comunitárias de apoio.
Nesse sentido, a economia solidária foi destacada como instrumento de fortalecimento das mulheres. Cooperativas, associações e grupos produtivos permitem construir alternativas coletivas de geração de trabalho e renda, ao mesmo tempo que ampliam vínculos de solidariedade, pertencimento e participação social.
“O movimento das mulheres na economia solidária precisa ser fortalecido. Precisamos chegar ainda mais às comunidades, dialogar sobre os direitos e fazer com que as informações cheguem às mulheres que estão mais distantes dos serviços públicos”, defendeu Josiane.
Claudia Silva, que acompanhou a condução do encontro, reforçou que a autonomia é uma dimensão indispensável no enfrentamento à violência. “A economia solidária é um dos caminhos para fortalecer a autonomia das mulheres”, destacou.
A Política Nacional de Cuidados também integrou o debate. As participantes discutiram a necessidade de superar a ideia de que cuidar da casa, das crianças, das pessoas idosas e dos familiares é uma obrigação exclusiva das mulheres. O cuidado deve ser reconhecido como um direito e como uma responsabilidade compartilhada entre homens, famílias, sociedade e Estado.
Educação popular para transformar os territórios
A formação reforçou que as participantes do curso são multiplicadoras dos conhecimentos construídos coletivamente. A proposta é que os debates ultrapassem o ambiente virtual e alcancem cooperativas, associações, escolas, comunidades e outros espaços de convivência e organização popular.
Além de orientar mulheres sobre seus direitos e os serviços disponíveis, as educadoras podem incentivar a participação em conselhos, conferências, sindicatos, cooperativas e movimentos sociais. Também podem contribuir para levar às comunidades discussões sobre divisão das tarefas domésticas, igualdade de gênero, participação política, violência contra as mulheres e respeito às diversidades.
“Cada educadora popular formada amplia a nossa capacidade de chegar aos territórios, compartilhar informações e acolher outras mulheres. Para a UNISOL Brasil, enfrentar a violência também significa fortalecer a autonomia, a organização coletiva e a participação das mulheres. Seguiremos construindo redes para que nenhuma mulher esteja sozinha e para que todas possam viver com dignidade, liberdade e sem violência”, concluiu Magda de Almeida, secretária-geral da UNISOL Brasil.

