Entre os dias 21 e 23 de agosto, a Aldeia Multiétnica Filhos Desta Terra, em Guarulhos (SP), recebeu o 19º Encontro dos Povos Indígenas. A programação reuniu representantes de diferentes povos originários, lideranças, organizações sociais, gestores públicos e visitantes em torno da valorização das culturas indígenas, da defesa de direitos e do fortalecimento dos territórios.
Além das manifestações culturais, dos cantos, das danças, do ritual sagrado Toré, das trilhas ecológicas e das rodas de conversa, o encontro abriu espaço para discussões sobre temas fundamentais para os povos indígenas, como educação, saúde, participação das mulheres, políticas públicas e geração de trabalho e renda dentro das comunidades.
Um dos destaques foi o debate sobre a economia indígena e sua contribuição para a autonomia das comunidades. O tema esteve presente tanto nas rodas de conversa quanto na feira de artesanato, que reúne produtos confeccionados por indígenas de diferentes povos.

O coordenador do projeto “Entrelaçando Culturas: Economia Popular e Solidária das Comunidades Indígenas”, Edmilson Gonçalves, explicou que as discussões mostraram a diversidade de desafios e de experiências existentes nos territórios.
“Tivemos discussões sobre as mulheres indígenas, educação, saúde e economia indígena. Foi um debate muito amplo, com vários temas importantes para as comunidades. Um dos assuntos que ganhou evidência foi justamente a importância da economia indígena para o fortalecimento dos territórios e de suas populações”, afirmou.
Segundo Edmilson, participaram do encontro lideranças de povos como Tupi-Guarani, Kariri-Xocó, Pataxó Hã-Hã-Hãe e Pankararé, além de convidados e representantes do poder público. A programação também contou com a presença de Sônia Guajajara, ex-ministra dos Povos Indígenas.

Economía indígena como instrumento de autonomía
Durante o encontro, as lideranças discutiram caminhos para consolidar a Rede de Economia Solidária Indígena, que atualmente articula iniciativas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Amazonas.
Entre as propostas debatidas estão a realização do primeiro congresso nacional da Rede e a organização de uma feira prevista para o final de novembro. As iniciativas buscam ampliar a articulação entre comunidades, fortalecer a comercialização e construir políticas voltadas à economia indígena em âmbito nacional.
Para Edmilson, criar condições para que o trabalho, a produção e a circulação de recursos aconteçam dentro dos próprios territórios é uma questão estratégica.
“A economia indígena fortalece o território e a população indígena. Ela cria possibilidades para que as pessoas não precisem sair de suas comunidades para trabalhar e possam gerar recursos dentro do próprio território. O desafio é transformar essa construção em um projeto nacional”, destacou.
Essa perspectiva também apareceu no depoimento de Awá, representante do povo Guarani de São Paulo. Ele ressaltou a importância da organização em rede e da participação indígena nos espaços nacionais da economia popular e solidária.
“Para nós, é muito importante fortalecer essa rede, que hoje reúne São Paulo, Rio de Janeiro e Amazonas. Também precisamos realizar mais eventos de economia solidária indígena e garantir nossa participação efetiva no Fórum Brasileiro, para que possamos apresentar nossas pautas e falar por nós mesmos”, afirmou.
Pedro, do povo Pankararé, chamou a atenção para a relação entre o debate político, a valorização cultural e a geração de renda. Para ele, a feira realizada durante o encontro também possibilitou que a sociedade conhecesse o movimento e o trabalho desenvolvido pelas comunidades.
“Estamos aqui no 19º Encontro dos Povos Indígenas de Guarulhos, debatendo políticas e participando da feira de economia solidária indígena. É uma oportunidade para conhecer nosso movimento e também o nosso artesanato”, declarou.

Cultura, formação e defesa de direitos
A programação contou com cantos e danças tradicionais, apresentações culturais, ritual Toré, rodas de conversa com lideranças, uma atividade exclusiva para mulheres indígenas, trilhas ecológicas e comercialização de artesanatos. Durante o fim de semana, também foi servido almoço típico e houve a possibilidade de acampamento na aldeia.
Na abertura da programação, estudantes da rede municipal de ensino, incluindo turmas da Educação de Jovens e Adultos (EJA), participaram de atividades de aproximação com as culturas, histórias e modos de vida dos povos originários.
Com apoio da Subsecretaria da Igualdade Racial de Guarulhos, o encontro reafirmou a importância de políticas públicas construídas com participação indígena e respeito às especificidades de cada povo.
Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Guarulhos possui mais de 1.600 indígenas, considerando tanto aqueles que vivem em contexto urbano quanto os moradores da aldeia.

Uma trajetória construída pela mobilização indígena
A primeira edição do Encontro dos Povos Indígenas de Guarulhos foi realizada em agosto de 2008, como resultado da reivindicação de indígenas que viviam no município. O movimento buscava o reconhecimento dos povos pelo poder público e a garantia de direitos e políticas específicas nas áreas de saúde, educação e assistência social, além de espaços para a manifestação de suas culturas, tradições e espiritualidades.
Antes da criação da Aldeia Multiétnica Filhos Desta Terra, o encontro acontecia no Bosque Maia. Desde 2018, a programação é realizada na aldeia, localizada na região do Cabuçu.
Dezenove edições depois, o encontro permanece como espaço de celebração, organização política e construção coletiva. Ao incorporar a economia popular e solidária como um de seus eixos centrais, a iniciativa também aponta caminhos para fortalecer a autonomia, a permanência e a geração de renda nos territórios indígenas com protagonismo dos próprios povos na definição de seu presente e de seu futuro.

