Autonomia econômica, participação política e valorização da diversidade são fundamentais para fortalecer a atuação das mulheres nos empreendimentos e nas redes de economia solidária.
As mulheres têm papel fundamental na economia solidária. Na agricultura familiar, no artesanato, na produção de alimentos, na reciclagem e em iniciativas comunitárias, elas movimentam a economia dos territórios, preservam conhecimentos tradicionais e sustentam formas coletivas de organização. Apesar dessa contribuição, ainda enfrentam desigualdades no acesso a recursos, oportunidades e espaços de decisão.
Para Anne Sena, idealizadora da EcoUni Redes Solidárias e presidenta da Unisol Bahia, fortalecer essa atuação exige mais do que ampliar a participação feminina nos empreendimentos. “Não basta incluir as mulheres nos empreendimentos ou nas atividades dos projetos. É necessário criar condições para que tenham acesso aos meios de produção, ao crédito, à formação, à tecnologia, aos mercados e, principalmente, ao poder de decidir sobre os rumos dos seus empreendimentos e das organizações das quais fazem parte.”
A organização coletiva é parte importante desse caminho. Os Comitês de Mulheres da UNISOL Brasil funcionam como espaços permanentes de diálogo, articulação e construção de propostas. Segundo Magda de Almeida, responsável pela coordenação dos Comitês de Mulheres e Juventudes e secretária-geral da Unisol Brasil, a iniciativa permite discutir continuamente as pautas das mulheres da base e fortalecer sua participação em espaços de gestão e representação.
Entre os desafios está o enfrentamento ao machismo, que também se manifesta dentro dos próprios movimentos, com a desvalorização do trabalho das mulheres e o questionamento de sua capacidade de liderança. A articulação em rede ajuda a transformar experiências individuais em pautas coletivas, ampliando as possibilidades de participação em conselhos, espaços de controle social e instâncias de decisão.
A diversidade dos territórios e das experiências
Na Região Norte, as desigualdades se somam às dificuldades de deslocamento e comunicação e à diversidade das realidades locais. Mulheres indígenas, ribeirinhas, agricultoras, pescadoras e extrativistas enfrentam desafios específicos para manter suas atividades produtivas e participar de espaços de organização coletiva.
Terezinha Barbosa, coordenadora da Regional Norte, chama atenção para a necessidade de considerar essas diferenças: “Precisamos considerar a diversidade dos territórios, as grandes distâncias, as dificuldades de transporte e comunicação e as diferentes realidades das mulheres indígenas, ribeirinhas, agricultoras, pescadoras e extrativistas.”
Para ela, fortalecer essas mulheres também significa ampliar as condições para que tenham autonomia e reconhecimento. Isso passa por apoio institucional, formação, intercâmbios e oportunidades de comercialização, além de espaços para compartilhar experiências e construir soluções em conjunto.
O papel da EcoUni no fortalecimento das redes
A EcoUni Redes Solidárias se insere nesse processo ao apoiar os empreendimentos, aproximar experiências e estimular a cooperação entre os territórios. A proposta envolve formação, assistência técnica e articulação em rede, reconhecendo a contribuição das mulheres para a soberania alimentar, a agroecologia e a valorização dos conhecimentos tradicionais.
Como destaca Anne, “Na soberania alimentar, por exemplo, é necessário reconhecer o papel das mulheres na produção de alimentos, na agroecologia, na preservação das sementes crioulas, na valorização dos conhecimentos tradicionais e na manutenção dos sistemas alimentares locais.”
Para que essas articulações tenham continuidade, é importante que as redes construam autonomia, objetivos compartilhados e capacidade de organização para além do período de execução dos projetos. “Uma rede não se consolida apenas porque os empreendimentos participaram de atividades conjuntas. Ela se consolida quando desenvolve confiança, identidade coletiva, capacidade de cooperação e objetivos compartilhados”, afirma Anne.
9º Encontro das Mulheres UNISOL Acre
A agenda de organização e fortalecimento das mulheres também estará em pauta no 9º Encontro das Mulheres UNISOL Acre, marcado para os dias 5 e 6 de novembro, em Rio Branco (AC), durante a 3ª Feira da Reforma Agrária. A atividade integra as ações de articulação do movimento e abre espaço para o diálogo sobre os desafios e as perspectivas das mulheres na economia solidária.
Fortalecer o protagonismo feminino significa garantir que as mulheres tenham condições de participar, propor e decidir sobre os rumos de seus empreendimentos e organizações. É também reconhecer que redes mais fortes dependem da valorização de quem constrói, todos os dias, a economia solidária nos territórios.

