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O Futuro da mecanização na agricultura familiar e o papel do novo laboratório Brasil–China.

Por: Dayvid Souza Santos / Foto:UAC/Xinhua

A mecanização da agricultura familiar brasileira representa um dos dilemas estruturaismais complexos da economia nacional. Enquanto o agronegócio de larga escala opera com níveis de mecanização comparáveis aos dos países desenvolvidos, a realidade da agricultura familiar é marcadamente distinta. **Dados do Censo Agropecuário (IBGE, 2017) — a fonte mais recente e abrangente sobre o tema — revelam que apenas 28% dos estabelecimentos da agricultura familiar utilizavam tratores, em contraste com 59% nas demais propriedades. Esse abismo tecnológico é ainda mais profundo quando se observam tecnologias digitais: na época do Censo, apenas 21,8% dos estabelecimentos familiares tinham acesso à internet, e um percentual ínfimo fazia uso de qualquer tipo de agricultura de precisão (IBGE, 2017).

Esse cenário de exclusão tecnológica é paradoxal frente à sua contribuição econômica e social. Segundo o mesmo Censo Agropecuário, a agricultura familiar é responsável por 23% do valor total da produção agropecuária do país, ocupando apenas 23% da área agrícola total. Esse modelo produz a maioria do feijão (67%), da mandioca (84%) e do leite (55%) consumidos internamente, evidenciando seu papel crucial na segurança alimentar (IBGE, 2017).

O paradigma convencional de modernização, herdado da Revolução Verde e focado em máquinas de grande porte, alto custo e operação intensiva em capital, mostrou-se historicamente incompatível com a realidade das pequenas propriedades. O resultado é um hiato tecnológico persistente, que não apenas limita a produção, mas também contribui para o êxodo rural, na medida em que o trabalho no campo se mantém excessivamente árduo e pouco atrativo para as novas gerações.

Lula e Luciana Santos: Uma visão de valorização da agricultura familiar

É importante destacar que o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem reinserido a agricultura familiar no centro da agenda de desenvolvimento nacional, reconhecendo sua importância estratégica para a soberania alimentar e a geração de renda no interior do
Brasil, quando incorporou à Nova Indústria Brasil (NIB), programa, peça central da política industrial do Brasil um eixo prioritário para agricultura familiar. Dentro deste eixo, a NIB estabelece metas claras para a mecanização, incluindo o aumento da densidade de tratores por hectare, a nacionalização de componentes críticos e a promoção de soluções tecnológicas sustentáveis e adaptadas aos diferentes biomas e portes de propriedades. Portanto, Lula, elegeu a “Revolução Tecnológica na Agropecuária” como um pilar fundamental para o desenvolvimento nacional.

Adicionalmente a frente do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), a ministra Luciana Santos, tem apresentado uma visão aguçada para o potencial transformador da cooperação internacional em ciência e tecnologia. Sob sua gestão, o MCTI não é apenas um financiador, mas um articulador ativo de parcerias que colocam a tecnologia a serviço de demandas sociais e da soberania nacional. A sua capacidade de enxergar na cooperação com a China uma oportunidade única de acelerar a inovação para a agricultura familiar foi crucial para dar corpo e credibilidade a projetos conectam ciência ao desenvolvimento nacional, a exemplo do Laboratório Brasil-China de mecanização para agricultura familiar. Sua atuação vai ao encontro da visão do Presidente Lula, traduzindo um direcionamento político em uma ação de estado concretizável.

O caso chinês: Uma lição em mecanização inclusiva e em massa

É neste contexto que a experiência chinesa se torna um farol estratégico. A China enfrentou um desafio semelhante, como alimentar uma população imensa com uma estrutura fundiária baseada em pequenas propriedades (em média, inferiores a 0,7 hectares, de acordo com o Banco Mundial). A resposta do país foi um investimento maciço e planejado em mecanização adaptada à pequena propriedade.

Os resultados são impressionantes. De acordo com o Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China, a taxa de mecanização integrada para o cultivo, semeadura e colheita de grãos ultrapassou 73% em 2023. O país é o maior produtor mundial de tratores, fabricando milhões de unidades anuais, com um foco significativo em modelos de pequena e média potência acessíveis aos seus milhões de pequenos produtores (National Bureau of Statistics of China). Este mercado vibrante de máquinas compactas, movido por milhares de fabricantes locais, tornou tecnologias acessíveis para uma base ampla de agricultores chineses. A China comprovou que a transição para a “mecanização inclusiva” é viável através de políticas industriais direcionadas, subsídios à aquisição e desenvolvimento tecnológico focado na escala real da sua agricultura.

Perspectivas globais e a fronteira tecnológica

A disparidade na mecanização é uma característica global da agricultura. Nos Estados Unidos, a propriedade média das fazendas possui cerca de 445 acres (aproximadamente 180 hectares), e a mecanização é quase universal, porém, o modelo é inacessível para a agricultura familiar de outros países, uma vez que para atender a essa escala imensa é necessário investimento em máquinas de alto custo, como colheitadeiras e tratores de grande porte. Já na Índia, outro gigante agrícola com predomínio de pequenas propriedades, a taxa de mecanização é heterogênea. O governo indiano implementa programas como o “Sub-Mission on Agricultural Mechanization” (SMAM) para subsidiar a aquisição de equipamentos para pequenos agricultores, com o objetivo de aumentar a produtividade e enfrentar a escassez de mão de obra rural (Ministry of Agriculture & Farmers Welfare, India). Na União Europeia, programas de desenvolvimento rural, como os do Fundo Agrícola Europeu (FEADER), frequentemente incluem financiamento para a aquisição de equipamentos eficientes e de baixo impacto por parte de pequenas propriedades, visando a sustentabilidade do ambiente rural e de seus produtores (European Commission, 2022).

Contudo, a nova fronteira tecnológica, baseada em inteligência artificial (IA), sensoriamento remoto, robótica leve e Internet das Coisas (IoT), está redefinindo as possibilidades de mecanização nas propriedades rurais. Estima-se que o mercado global de agribots (robôs agrícolas) deve superar US$ 25,6 bilhões até 2028, segundo a consultoria Markets and Markets (2023). É neste contexto que nasce o paradigma que combina automação, sustentabilidade e democratização do acesso à tecnologia no meio rural, com máquinas que são, por natureza, menores, mais baratas, modulares e inteligentes.

O Laboratório Brasil–China: Superação do abismo tecnológico

É precisamente nesse ambiente global de transições sem precedentes que a criação do Laboratório Brasil – China de Mecanização e Inteligência Artificial Aplicada à Agricultura Familiar assume um papel transformador. Esta iniciativa conjunta, apoiada pelo MCTI, não é um mero projeto de cooperação científica, mas uma política de Estado para a construção de soberania tecnológica.

A cooperação com a China oferece ao Brasil a oportunidade de acelerar em décadas o seu processo de inclusão tecnológica. O Laboratório será um canal direto para adaptar e desenvolver as soluções que fizeram da China uma potência em mecanização de pequena escala, incorporando a mais recente fronteira da IA e da robótica. Além de gerar novas tecnologias, terá um papel formativo essencial, qualificando mestres e doutores para reduzir a dependência tecnológica e fortalecer as capacidades nacionais de inovação.

Em um momento em que o mundo busca soluções sustentáveis para garantir a segurança alimentar, iniciativas como essa mostram que a mecanização do futuro será inteligente, conectada e inclusiva. O laboratório simboliza, portanto, um novo capítulo na cooperação Brasil–China, pautado pela construção conjunta de conhecimento. Mais do que máquinas, trata-se de promover um modelo de desenvolvimento agrícola baseado em ciência, equidade e sustentabilidade — no qual cada inovação é pensada para fortalecer o trabalho, preservar o ambiente e, finalmente, sanar o histórico abismo tecnológico que limita o potencial da agricultura familiar brasileira.

É importante destacar que este esforço, no entanto, não se fará sem a peça-chave desse ecossistema, a indústria nacional de máquinas e equipamentos agrícolas. Com um histórico de décadas no desenvolvimento de soluções para a agricultura tropical, o setor detém o conhecimento prático essencial para transformar os protótipos de laboratório em produtos robustos e comercializáveis. O Laboratório Brasil-China, portanto, deve ser compreendido como um chamamento para um desenvolvimento nacional conjunto.

Trata-se de uma convocatória para que instituições brasileiras, a exemplo das universidades, centros de pesquisa, o governo e a indústria se unam em torno de um objetivo comum, entre eles, o de internalizar as inovações, dominar as cadeias de valor da agricultura inteligente e, assim, garantir que a próxima geração de tratores, sensores e plataformas digitais, atenda de forma exemplar a agricultura familiar de nosso país, portanto, o mercado interno, mas ganhe contornos internacionais, principalmente em países do sul global, uma vez que tal feito, fortalece a nossa soberania tecnológica e gera empregos de alta qualidade.

*Doutor em Engenharia Industrial pela UFBA. Professor EBTT-DE do Instituto Federal Goiano. Membro da International Society on MCDM – Multiple Criteria Decision Making e da International Society for Development and Sustainability (ISDS). Atualmente está como Coordenador Geral de Tecnologia Social do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

**(Nota: O Censo Agropecuário é realizado aproximadamente a cada 10 anos. O de 2017 é o último publicado. A próxima edição está prevista para 2025-2026, o que evidenciará a evolução deste cenário).


Fontes:

  1. IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Censo Agropecuário 2017. (É a fonte mais atual e completa disponível. O próximo Censo está previsto para 2025- 2026).
  2. Banco Mundial. “Agricultural land (sq. km) – China”. (Fornece contexto sobre a média de tamanho das propriedades na China).
  3. Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China (MARA). “China’s comprehensive mechanization rate of crop cultivation and harvest exceeds 73% in 2023”. (Comunicação oficial sobre as taxas de mecanização).
  4. National Bureau of Statistics of China. (Fornece dados anuais sobre a produção industrial, incluindo tratores).
  5. Ministry of Agriculture & Farmers Welfare, India. “Sub-Mission on Agricultural Mechanization (SMAM)”. (Detalha o programa de mecanização do governo indiano).
  6. European Commission. “CAP Strategic Plans 2023-2027: A closer look at eco-schemes and rural development interventions.” (Explica os mecanismos de financiamento para equipamentos na UE).
  7. Markets and Markets. “Agricultural Robots Market by Type… – Global Forecast to 2028”. Report ID: 246121575. (Fonte da projeção do mercado de agribots).

Dayvid Souza Santos

Doutor em Engenharia Industrial – PEI/UFBA
Membro da Sociedade Internacional de Tomada de Decisão por Múltiplos Critérios
Membro da Sociedade Internacional para o Desenvolvimento e Sustentabilidade (ISDS)
Membro do Centro Internacional de Pesquisa e Informação sobre a Economia Pública, Social e Cooperativa

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