A 27ª Feira Estadual de Economia Popular e Solidária, realizada no Largo Glênio Peres, no centro de Porto Alegre, reafirmou mais uma vez seu papel como um dos maiores eventos do setor no país. Com mais de 300 empreendimentos presentes, distribuídos em 84 estandes, a Feira deve encerrar sua edição nesta quarta-feira (10) com aproximadamente R$ 500 mil em vendas, um marco que consolida a relevância econômica e social do trabalho coletivo no Rio Grande do Sul.
O balanço foi apresentado na segunda-feira (8), durante um seminário de formação promovido no auditório do Cpers. Para a presidenta da Unisol/RS, Nelsa Nespolo, o resultado simboliza muito mais do que números: revela a potência transformadora da economia solidária na geração de renda e circulação de recursos nos territórios.
“Vamos chegar perto dos R$ 500 mil em vendas, e isso significa muito para quem produz coletivamente. É renda real entrando na economia, é trabalho valorizado, é autonomia. E tudo isso dialoga com o papel da Unisol: representar quem faz a economia solidária acontecer, viabilizar condições e mostrar para a sociedade que existem outras formas de produzir, de comercializar e de consumir, todas de base coletiva”, afirmou.
Estantes gratuitas e mais dias de feira: avanços concretos para quem produz
Pela primeira vez em 27 anos, os expositores não pagaram pelas bancas, que custavam, em anos anteriores, cerca de R$ 1,6 mil. Essa conquista, articulada com parceiros públicos e privados, garantiu maior acesso, reduziu custos e ampliou a margem de renda dos artesãos, agricultores familiares e grupos produtivos presentes.
Além disso, a Feira teve o período de vendas ampliado de sete para dez dias, garantindo maior fluxo de público e novas oportunidades. A artesã Terezinha Bacon de Farias, do grupo Art em Fios (Passo Fundo), sintetizou o sentimento das trabalhadoras:
“Vendi tanto que nem conseguia sentar para descansar.”
Segundo Nelsa, essa mudança é simbólica e estratégica:
“Cada produto vendido vai direto para o bolso de quem faz e reparte com o coletivo. A feira não é só um espaço de vendas; é um processo de conscientização. Aqui as pessoas conhecem quem produz, entendem a metodologia solidária e percebem que consumir da economia popular solidária é distribuir renda.”
Formação, políticas públicas e estratégias para 2026
O evento também marcou a posse dos novos integrantes do Conselho Estadual de Economia Solidária (Cesol), reforçando a articulação institucional e política necessária para o avanço do setor. Por aclamação, os participantes defenderam a recriação da Secretaria Estadual de Economia Solidária, extinta em gestões anteriores, e a retomada de políticas estruturantes para o segmento.
As discussões ganharam peso diante do cenário eleitoral de 2026 e da necessidade de consolidar a economia solidária como prioridade na agenda pública. A professora Josiane Krebs (IFRS) destacou que integrar o setor é “mais do que produzir: é um modo de vida onde se luta por direitos”.
O presidente da Conab, Edegar Pretto, apresentou políticas que contribuíram para recolocar o Brasil fora do Mapa da Fome, como a retomada do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a recomposição dos estoques reguladores.
Já o presidente da Assembleia Legislativa, Pepe Vargas (PT), reforçou: “A economia solidária existe, é real e funciona.” Ele ainda destacou os desafios como acesso a crédito, formalização de empreendimentos e capacitação para ambientes competitivos.
A deputada federal Maria do Rosário (PT) lembrou que o atual Congresso, majoritariamente branco, masculino e milionário, não reflete as pautas do povo, o que exige mobilização para renovar a representação e fortalecer marcos legais do setor.
Economia solidária como projeto de futuro
A edição deste ano adotou o slogan “Comércio justo e consumo consciente”, refletindo valores que acompanham o setor há décadas, e contou com apoio do Governo Federal, Fundação Banco do Brasil, Governo do Estado e diversas entidades parceiras comprometidas com o fortalecimento dos empreendimentos solidários.
Para Nelsa, a economia solidária antecipa debates contemporâneos sobre trabalho, sustentabilidade e governança:
“A economia solidária já nasce com todos os princípios do ESG em sua essência. E ela tem um rosto feminino que ninguém segura quando o compromisso é fazer um mundo melhor.”
Outro destaque foi o levantamento nacional para atualização do CadSol, o Cadastro Único da Economia Solidária, essencial para orientar políticas públicas mais precisas e ampliar o reconhecimento institucional do setor.
A recente Lei nº 15.068/2024 (Lei Paul Singer), que institui a Política Nacional de Economia Solidária, foi igualmente celebrada por participantes, trazendo princípios como gestão democrática, transparência, cooperação, comércio justo e desenvolvimento sustentável, bases presentes há décadas nas práticas de associações e cooperativas.
Um marco para o Rio Grande do Sul e para o Brasil
Com crescimento nas vendas, ampliação da participação popular, fortalecimento das redes de formação e conquistas políticas importantes, a 27ª Feira Estadual reafirma o Rio Grande do Sul como referência nacional em economia solidária. “Mais do que um evento, a Feira se consolidou como um laboratório vivo de desenvolvimento territorial, onde renda, cultura, solidariedade e educação se entrelaçam para mostrar que outro modelo econômico não apenas é possível, ele já está em prática”, finalizou Nelsa.





