A construção de alternativas para fortalecer o abastecimento popular, ampliar a comercialização da agricultura familiar e fazer alimentos saudáveis chegarem à população esteve no centro da reunião do território de São Paulo, realizada no dia 1º de junho, em Brasília. A atividade integrou a programação do I Encontro Nacional para a Transformação dos Sistemas Agroalimentares, realizado pela Missão Josué de Castro entre os dias 1º e 3 de junho, na Universidade de Brasília (UnB).
Em parceria com a Fundação Banco do Brasil (FBB), o Encontro Nacional reuniu movimentos populares, organizações da agricultura familiar, entidades da Economia Popular e Solidária e representantes de diferentes territórios do país. Com o tema “Territórios que lutam, soberania que alimenta”, a programação debateu soberania alimentar, justiça climática, transição agroecológica, abastecimento, mercados territoriais, comunicação e organização popular.

A reunião do território de São Paulo ocorreu dentro do espaço destinado à articulação dos territórios participantes da Missão Josué de Castro. Ela teve como objetivo identificar coletivamente as necessidades do território de São Paulo relacionadas à Missão Josué de Castro e definir, a partir das experiências dos participantes, quais temas seriam trabalhados, como abastecimento, produção, cozinhas solidárias, transição agroecológica e mudanças climáticas.
Conduzida por Andrea Vieira Gonçalves, agente territorial da UNISOL, e Juliana Andrade Bruno Favacho, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), a atividade reuniu representantes da UNISOL, Central de Movimentos Populares (CMP), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e MTST.
Participação da UNISOL na reunião do Território São Paulo
Além da agente territorial, participaram da reunião representando a UNISOL Edivânia Maria Silva de Oliveira, Edilene Maria Silva de Oliveira e Maria José Marques da Silva, de Mogi das Cruzes; Jorge Henrique Morais da Silva, de Campinas; e Gabriele Ramos Venancio, de Iperó.
A participação da entidade reforçou o compromisso da Economia Popular e Solidária com a construção de sistemas de produção, comercialização e abastecimento organizados coletivamente e voltados às necessidades da população.

“Eu acho que a gente tem que trabalhar de forma coletiva para que isso aconteça”, destacou Gabriele Ramos Venancio, ao tratar da necessidade de articulação entre cooperativas e associações para atender programas institucionais como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Em sua fala, ela ressaltou que o abastecimento não pode depender de iniciativas isoladas, mas de um trabalho coletivo entre organizações, com integração da produção, da logística e das políticas públicas.
Os desafios identificados pelo território de São Paulo devem contribuir para a continuidade das discussões no núcleo mobilizador da Missão Josué de Castro e para a organização de novos encontros territoriais. Entre os próximos desafios estão a definição de modelos permanentes de logística, o financiamento das estruturas coletivas, a participação dos agricultores na elaboração dos editais públicos e a ampliação das estratégias de transição agroecológica.
Logística é apontada como principal desafio
A logística para o escoamento e a distribuição da produção foi identificada como um dos principais gargalos enfrentados pela agricultura familiar e urbana. Os participantes destacaram que os altos custos e a exigência de entregas em diferentes pontos dificultam o acesso dos agricultores aos programas institucionais e a outros espaços de comercialização.
Entre as soluções levantadas estão a criação de sistemas regionais de logística, com pontos centrais de recebimento e distribuição, e o fortalecimento de cooperativas, associações e centrais de comercialização. A organização coletiva foi apontada como fundamental para ampliar a capacidade dos empreendimentos de atender programas como o PNAE e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Experiências desenvolvidas em Sorocaba e em outras regiões demonstraram que a articulação entre cooperativas pode tornar a distribuição mais eficiente, permitir a troca de produtos entre organizações e ampliar o atendimento às escolas e demais equipamentos públicos.

Para Gabriele Ramos Venancio, da UNISOL, a logística precisa ser considerada desde a elaboração dos editais públicos, especialmente nos contratos relacionados ao Programa Nacional de Alimentação Escolar.
“A gente já conversa entre cooperativas para colocar essa logística no custo. Quando sai o edital, ele já sai pagando a nossa logística”, explicou. Segundo ela, é fundamental que as organizações se apresentem às prefeituras para contribuir na construção de editais que considerem a realidade dos produtores e da classe trabalhadora.
No mesmo sentido, Rodrigo Araújo, da UNISOL, em sua participação no painel sobre abastecimento no Encontro Nacional, destacou que a organização do abastecimento depende da continuidade das políticas públicas e da integração entre os diferentes movimentos.
“Quando se tem uma desconstrução das nossas políticas públicas, todo aquele trabalho que a gente está fazendo há anos cai por terra. Fica difícil de segurar. Essa dimensão política também é um desafio nosso. A gente não pode esquecer de manter a política pública que vem dando certo”, afirmou. Para Rodrigo, esse desafio exige articulação permanente: “Não podemos deixar que tenha pouca integração entre os diferentes movimentos. Nós estamos aqui com gente do nosso país todo. Nosso país é imenso, é a diversidade do nosso país. E a gente está aqui exatamente para isso: para incluir e entender a necessidade de cada um”.

Compras públicas e cozinhas solidárias
A reunião também discutiu a necessidade de aproximar agricultores, gestores públicos e nutricionistas responsáveis pela elaboração dos cardápios escolares. A proposta é garantir que as compras públicas considerem a sazonalidade, a diversidade produtiva, a qualidade dos alimentos e as condições reais de trabalho dos agricultores.
Uma experiência desenvolvida em Peruíbe pelo MPA mostrou a importância de orientar os setores responsáveis pelas compras públicas a buscarem orçamentos diretamente com agricultores, em vez de utilizarem somente os preços praticados por grandes mercados. O diálogo com nutricionistas também pode contribuir para adequar os cardápios à produção disponível em cada território.
As cozinhas solidárias foram reconhecidas como espaços estratégicos para a organização do abastecimento popular. Entre as experiências compartilhadas está a articulação semanal entre cooperativas e cozinhas para definir os alimentos disponíveis conforme a produção.
O banco de alimentos do MTST foi apresentado como uma possibilidade de centralizar o recebimento dos produtos adquiridos pelo PAA e facilitar a distribuição para as cozinhas solidárias. Alimentos com maior durabilidade, como arroz, feijão, mandioca, batata, abóbora e folhas destinadas ao preparo cozido, foram apontados como importantes para esse processo.

Transição agroecológica e mudanças climáticas
Outro tema debatido foi a necessidade de ampliar a transição agroecológica e oferecer acompanhamento aos agricultores que ainda produzem pelo modelo convencional. O grupo destacou a importância da formação, da troca de experiências e da certificação como instrumentos para valorizar o trabalho dos agricultores e ampliar o acesso aos mercados.
Os impactos das mudanças climáticas sobre a produção também fizeram parte das discussões. Agricultores relataram alterações no ciclo de crescimento das hortaliças e dificuldades para comercializar produtos que não atingem o tamanho esperado dentro do período habitual.
Como resposta a esse cenário, os participantes defenderam a diversificação da produção e a ampliação do uso de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs). A inclusão dessas plantas nos cardápios das escolas, das cozinhas solidárias e de outros espaços de alimentação coletiva foi apontada como forma de valorizar os saberes ancestrais e fortalecer a segurança alimentar nos territórios. Nesse contexto, a CMP compartilhou uma experiência de soberania alimentar desenvolvida em São Bernardo do Campo, com produção de hortas medicinais e distribuição de alimentos às famílias do território.
A reunião do território de São Paulo reafirmou o papel da Missão Josué de Castro como espaço de articulação entre movimentos populares e organizações comprometidas com a soberania alimentar. Ao reunir diferentes experiências e necessidades territoriais, a Missão contribui para transformar desafios concretos em estratégias coletivas de organização, incidência e fortalecimento dos sistemas agroalimentares nos territórios.

